Bordados dos Açores / Azorean Embroideries (II)

Vou basear-me nos dois livros referidos na anterior entrada sobre os Bordados dos Açores para vos falar nos Bordados da Terceira.
cliquem nas fotos para verem melhor

I’ll base on both books mentioned in the previous post about Azorean Embroideries to talk about Terceira Embroideries.
you can click on the pictures to see better.

Basicamente o Bordado da Terceira é tradicionalmente referido como bordado a branco. No bordado a branco não são os pontos usados que o definem especialmente, pois são pontos usados por todas as bordadeiras das Ilhas e de Portugal Continental e de todo o Continente Europeu. Este tipo de bordado aparece com o classicismo de finais do séc. XVIII. É o tipo de bordado mais recomendável para as roupas de casa.
Tecidos brancos de linho, algodão, musselina, cambraia, popelinas são usados no bordado a branco, designadamente o bordado inglês (broderie anglais) que ornamenta não só a roupa de casa (monogramas em lençóis e almofadas), mas também a roupa interior, toucas, aventais, lenços e roupa infantil.

Basically Terceira Embroideriesis traditionally referred to as whitework embroidery. The stitches used in whitework embroidery are not what define especially this kind of embroidery, because the stitches are used by all embroiderers in the Portuguese Islands and continent as well as in entire European continent. This type of embroidery appears with the classicism of the late 18th century. It is the most recommended type of embroidery for household linen.
White linen, cotton, muslin, chambray fabrics are used in whitework, namely English embroidery (broderie anglais) which decorates not only the household linen (monograms on linens and pillows), but also underwear, caps , aprons, scarves and children’s wear.

Usa-se predominantemente o ponto aberto e o bordado a cheio na decoração ao longo do séc. XIX, dos linhos que faziam parte da bagagem dos emigrantes que partiam para o Brasil, onde desenvolveram a indústria de tecidos de algodão e linho, associada à indústria de bordados. No final do séc. XIX já se pode falar de uma exportação regular e industrializada que se estende, não só ao Brasil, mas também aos Estados Unidos e Canadá e norte da Europa (Inglaterra e Alemanha) a par com o bordado Madeirense. Há notícias que as casas da Madeira procuravam na ilha Terceira bordadeiras a quem confiavam o excesso de encomendas.Em meados do séc. XIX há registo de grande número de bordadeiras em Angra do Heroísmo, e bordadeiras também recrutadas nas ilhas de S. Jorge e Graciosa.
As ligações comerciais do Bordado da Madeira com a Inglaterra estenderam-se às ilhas dos Açores. Observando com atenção o bordado da Madeira e o da Terceira encontram-se realmente afinidades entre os dois especialmente de 1940 e 1960, muito mais que atualmente. Ambos os bordados evoluiram natural e diversamente.
It is used mostly openwork and satin stitch along the 19th century, in the linens that were part of the baggage of emigrants leaving for Brazil, where they developed the industry of cotton and linen, associated with the embroidery industry. At the end of the 19th century we can already speak of a regular and industrialized export that extends not only to Brazil but also to the United States and Canada, and northern Europe (England and Germany) alongside with Madeira embroidery.There are records that houses on Madeira  island looked for embroiderers in Terceira island to whom trusted the excess of orders.
In  mid- 19th century  there are records of a large number of embroiderers in Angra do Heroismo, and there are embroiderers sought from  islands of S. Jorge and Graciosa as well.
Commercial links between Madeira Embroidery and England extended to the islands of the Azores. A careful observation of the embroidery of Madeira and the embroidery of Terceira are actually affinities especially between 1940 and 1960, much more than today. Both embroideries have evolved natural and differently.
Nota minha: as fotos que se seguem penso eu que serão as peças mais antigas: lenços, monogramas, etc.
My note:I think the following photos  are the oldest pieces: handkerchiefs, scarves, monograms, etc..

Os lenços de amor brancos bordados a ponto cheiro e recorte encontram-se nos exemplares mais antigos desta região; também o ponto aberto (crivos artísticos), o richelieu, os ilhós em linha de algodão branco em tecido branco caracterizam atualmente o Bordado da Terceira. Classificar este tipo de bordado não é fácil pois também integra o ponto grilhão, pé de flor, corda, canutilho, caseado, cavacas, ponto de areia, granitos e nozinhos – a sua utilização tanto dependia do gosto das bordadeiras como das tendências do mercado. O mesmo acontecendo com os motivos decorativos (estilizados ou não) que, como por esse mundo fora, se baseiam na flora campestre: ramos, flores, laços, corações, etc.

White love handkerchiefs embroidered with satin stitch and buttonhole stitch are the oldest examples of this region; also openwork ( artistic openwork ), richelieu, eyelets in white cotton threads on white fabrics currently characterize Terceira embroidery. Classify this kind of embroidery is not easy because it also includes the Palestrina Stitch,Stem stitch, Bullion, Buttonhole Stitch, Cavacas, Seed Stitch,  Granitos and French Knots – its use both depended on the taste of embroiderers as market trends. The same happened with decorative motifs (stylized or not), as throughout the world are based on flora : branches, flowers, bows, hearts, and so on.



Mais que a técnica o que distingue o bordado a branco feito nas ilhas Terceira e Graciosa são os temas e composição dos motivos decorativos – poderá ser definido como uma das diversas versões populares do bordado inglês ou germânico, ao lado do Bordado de Guimarães, de Tibaldinho, da Lixa, da Terra de Sousa e da Madeira.
Do bordado inglês distingue-se pela variedade de pontos utilizados, o uso em cachos do ponto cheio e ilhós sombreados ou não, o preenchimento das aberturas com crivo, os ilhós juntos em diversas composições geométricas de que resultam, por exemplo, as designadas cavacas(1) e viúvas(2). É nestas versões que o bordado da Terceira se apresenta e distingue atualmente
Entre todos estes bordados existem muitas afinidades e percurso semelhante: uma fase antiga de cariz nobre, uma grande variedade de pontos e harmonia de composição decorativa, uma fase de regionalização, tipificada nos motivos mais populares e tradicionais e a fase moderna, caracterizada por alguma liberdade na composição decorativa assim como na utilização de novos materiais e novas cores, sem, contudo, ignorar os modelos anteriores.[i]

More than the technique which distinguishes whitework made at Terceira and Graciosa are the themes and the composition  motifs of decoration – it can be set to one of several popular versions of English embroidery or Germanic whitework, aside of Guimarães Embroidery, Tibaldinho Embroidery, Lixa Embroidery, Terra de Sousa Embroidery and Madeira Embroidery.

It is well distinguished from English embroidery (broderie anglaise) by the variety of stitches used in clusters using satin stitch and  shadowed (or not) eyelets , filling the open work, eyelets together in various geometric compositions that result , for example , designated cavacas(1) and widows(2) (literal translation). It is these versions that Terceira embroidery currently presents and distinguishes.

Among all these embroideries are many affinities and similar route : an ancient phase of noble nature, a variety of decorative stitches and harmony of composition, a process of regionalization, typified in the most popular and traditional motifs and a modern phase, characterized by some freedom in decorative composition as well as the use of new materials and colors, without ignoring the old models.[i]

[i] In Bordados dos Açores – Bordado de S.Miguel – textos de Alexandra Andrade.

Cores e motivos mais atuais
Colours and more recent motives

Bordado da Terceira atual

Bordado da Terceira atual

(1)cavaca (regional term – none translation found)


(2) Viúvas (regional term – widows – literal translation)

E é tudo sobre o Bordado da Terceira. O bordado da outra ilha dos Açores de que vou falar penso ser bastante desconhecido, mesmo para os Portugueses!
Bom fim de semana!

And it’s all about Terceira Embroidery. The embroidery of the other island of Azores I’ll be talking next is quite unknown even to the Portuguese people, I think!
Have a great weekend!

 

3 thoughts on “Bordados dos Açores / Azorean Embroideries (II)

  1. Gostei da aula. Não faltaram as cavacas a as viúvas (de que nunca tinha ouvido aplicar em bordado) Fico à espera da outra ilha secreta. Só conhecia os bordados de São Miguel. Tenho uma toalha, (que nunca usei) que vem confirmar a sua explicação. Há muitos anos, na altura da erupção dos Capelinhos o meu irmão trouxe-me uma toalha da Madeira, feita pelas bordadeiras açoreanas e sempre pensei ser engano.

    • Também nunca tinha ouvido falar…nas cavacas e viúvas! Ora aqui temos um testemunho vivo da história dos Bordados da Terceira! Obrigada pelo seu testemunho, Maria de Lurdes. Inté;)

  2. Tudo lindo de morrer… Estes não conhecia… A minha pesquisa ainda não me tinha levado tão longe!! Acho que me poupava muito trabalho, quando tiver que falar nestes bordados, fazer um link directo para aqui!!!
    Numa ou noutra peça parecia mesmo Tibaldinho…Parabéns minha querida (tia) avó Méri, estou a gostar muito deste regresso..

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