Bordado Castelo Branco (I)

Nem sei bem por onde começar! O melhor, mesmo, é começar pelo princípio ;)
Graças à Ana Folhas (obrigada Ana!) fui a Castelo Branco. Finalmente! Quem me segue há algum tempo sabe que falo nesta ida a Castelo Branco há já três a quatro anos, pelo menos. É claro, tudo por causa dos Bordados de Castelo Branco.

I’m not sure where to start! Perhaps the best is start at the beginning ;)
Thanks to Ana Folhas I finally went to Castelo Branco! Who follows me for a while knows I speake on this trip to Castelo Branco for long. Of course all about Embroidery of Castelo Branco.

Estivemos, a Ana e eu, à conversa em Cascais. Tão bom, temos de repetir, sim!?
No dia seguinte partimos para Castelo Branco, almoçámos muito bem em Constância, no Remédio D’Alma.
Logo que chegámos a Castelo Branco fomos ao Museu Francisco Tavares Proença Junior.

Ana and I were chatting at Cascais. So good, we have to do it again!
Next morning we leave to Castelo Branco, had a very good lunch in Constância, at Remédio D’Alma.
As soon as we arrived at Castelo Branco went to Francisco Tavares Proença Junior Museum.

 Sabia que já não teria muito tempo até o museu fechar, nessa tarde, por isso fui directa à sala-oficina onde estão as bordadoras do museu. Encantei-me a conversar com a D. Maria de Jesus, sempre a bordar com uma perícia e rapidez de espantar. São muitos anos já, diz ela sorrindo. Fiquei logo a saber que tinha cometido um enorme erro quando aqui mostrei sedas vegetais como sendo as sedas com que se faziam os bordados de Castelo Branco. De facto este bordado é feito com seda natural, actualmente adquirida em Itália. Mas disto falarei noutro artigo.
Quando me despedia, perguntei se podia fazer uma fotografia. Disse que não costuma deixar, mas sim podia tirar. Obrigada!
I knew I had not much time till the evening closure of the museum so I went directly to the workshop-room where the embroiderers are. To talk to Mrs. Maria de Jesus has charmed me always embroidering with a surprising skill and speed. Many years, she says smiling. I soon learned I’ve made a huge mistake when I showed (and sent to some friend bloggers) vegetal silks as being the silks used in the embroideries of Castelo Branco. In fact the embroidery is made with natural silks nowadays acquired in Italy. But I’ll talk about this later.
When I left I asked if I could make a picture. She said she usually doesn’t allow but yes I could do it. Thanks!

A D. Maria de Jesus explicou-me que o bordado de Castelo Branco tanto pode ser monocromático, como o que estava a fazer – branco sobre castanho, uma encomenda –  como policromático, talvez o mais conhecido. Na sala, num outro bastidor estava uma outra encomenda começada, monocromática também, em amarelo dourado sobre branco. A D. Maria de Jesus chamou-me a atenção de, no bordado monocromático, a bordadora “jogar” com a direção e a escolha dos pontos. A direção dos pontos muda a tonalidade da seda, parecendo, por vezes, que se usam sedas de tons ligeiramente diferentes. Também a escolha dos pontos é diferente num bordado monocromático como o que estava a fazer, trabalhando em função do tecido escuro que usava – assim, uma flor, que num bordado policromático teria as pétalas cobrindo todo o tecido, possivelmente com tonalidades diferentes da mesma cor e direções diferentes dos pontos, no bordado monocromático as pétalas teriam uma parte que cobria o tecido e outra que seria preenchida com pontos de fundo para que o tecido escuro se pudesse ver. E esse princípio aplica-se a todos os motivos. A escolha é da bordadora, embora nessa escolha esteja subjacente anos e anos de prática para a escolha acertada. Mas até a D. Maria de Jesus referiu que tinha acabado de desfazer um ponto de fundo, pois não gostou do resultado e tinha feito outro que resultou melhor.

Mrs. Maria de Jesus explained that Castelo Branco embroidery can be either monochrome, as he was doing – white on brown, an order – as polychromatic, perhaps the best known. In the room, another order was started, also monochrome, golden yellow on white. Mrs. Maria de Jesus caught my attention to the fact that in monochrome embroidery needleworker “plays” with the direction and the choice of stitches. The direction of the stitches changes the hue of silk, looking as slightly different shades of silks are being used. Also the choice of stitches is different in a monochrome embroidery like the one she was doing, working on a dark tissue – so a flower, which would have embroidered petals covering the entire fabric in a polychromatic , possibly with different shades of the same color and different directions of the stitches, in monochrome embroidery petals have a part that covered the tissue and another that would be filled with filling stitches in order to the dark fabric can be seen. And this principle applies to all motifs. The choice is done by the embroiderer flair, but underlying this choice there is years and years of practice for the right choice. But even Mrs. Maria de Jesus said she has just undone a filling stitch and tryed another one she thinks works better.

Fiquei com a certeza de que o Bordado de Castelo Branco não se aprende num workshop qualquer. Há tantas variáveis quer na escolha de pontos, quer na escolha das cores e suas tonalidades – diferente num cravo, numa romã ou num pássaro. São necessários muitos anos para adquirir toda essa sabedoria. Pena é que todos estes depoimentos não sejam registados ou que se façam filmagens destas bordadoras bordando e explicando – se calhar até já há e eu não sei …
Um grande muito obrigada, D. Maria de Jesus, pela sua simpatia, paciência e generosidade, mas principalmente pelos tesouros que saem das suas mãos e das suas colegas!

I have the conviction that the embroidery of Castelo Branco can’t be learned in a single workshop. There are so many variables both in choice of the stitches, both in choice of the colors and its shades – different in a carnation, a pomegranate or a bird. It takes many years to get all this wisdom. The pity is that all these statements and skills are not registered in paper or movies – maybe they already are and I don’t know …
A big thank you, Mrs. Maria de Jesus, for your kindness, patience and generosity, but mainly for the treasures that come out of your hands and your fellows!

Numa das grandes paredes da sala-oficina estavam duas colchas belíssimas feitas pelas bordadoras do museu. A que foi feita para o centenário do museu (no ano passado) era um espanto! A D. Maria de Jesus chamou-me a atenção para o pormenor do ponto matiz, perfeitíssimo. Sei que não se podem tirar fotografias no museu e, depois de tanta amabilidade, acanhei-me de pedir para tirar mais uma fotografia :-| talvez para a próxima ida a Castelo Branco, quem sabe?

In one of the great walls of the workshop-room were two beautiful coverlets made ​​by the embroiderers of the museum. The one made for the centenary of the museum (last year) was a surprise! Mrs. Maria de Jesus called my attention to detail of the long and short stitch shading (thread painting, needle painting), absolutely perfect. I know I can’t take pictures in the museum and, after so much kindness, I was shy to ask  for another shot :-|  maybe for the next trip to Castelo Branco, who knows?

a wonderfull book where you can see the both sides of the embroidery, at the shop of the Museum

um livro maravilhoso, onde se pode ver os dois lados do bordaddo – na loja do Museu

Apesar de continuarem a ter muitas encomendas, senti um desalento muito grande quanto ao futuro do bordado de Castelo Branco devido a muitas adulterações e simplificações que estão a aparecer e ao desaparecimento da oficina-escola do museu. Atualmente o museu tem só três bordadoras, que não serão substituídas quando se reformarem. Há uma sensação de descontinuidade de muitas actividades do museu desde a sua integração no Instituto dos Museus e Conservação e da dependência deste instituto, sediado em Lisboa. Até na loja do Museu! Não sei se é real se só sentida. Há, de facto, pouco dinheiro, mas é capaz de haver alguma desigualdade em relação aos museus de Lisboa…
Há uma associação que irá ter a responsabilidade de todo o património e preservação do bordado de Castelo Branco. Falarei disso numa outra entrada.

Despite having many orders, I felt a great discouragement about the future of Castelo Branco embroidery due to many simplifications and misrepresentations that are appearing and the disappearance of museum school workshop. Currently the museum has only three embroiderers and they will not be replaced when they retire. There is a sense of discontinuity of many activities of the museum since its integration into the Institute of Museums and Conservation and the dependence of the institute, based in Lisbon. Even in the Museum shop! I do not know if it’s real or just felt. There is, in fact, little money, but it can be some inequality in relation to museums in Lisbon …
There is an association that will be responsible for all the heritage and preservation of Castelo Branco embroidery. I will speak of it in another entry.

(continua)  (to be continued)

8 thoughts on “Bordado Castelo Branco (I)

  1. I do hope that the institute can keep going – and even maybe find some apprentices. What a treasure house of knowledge!

  2. Oh, what a beautiful embroidery !!! It was quite a journey for you. It would such a shame not to carry on, it must not be lost.

  3. Oh God..to think that all this knowledge will be lost once the embroiderers retire ! Can’t something be done? Thank you for the valuable pictures. Love that white flower which Mrs. Maria is embroidering.

  4. Pingback: Castelo Branco (II) | agulhas da Méri®

  5. Obrigada Helena!
    @Elmsley Rose,@Radka, @Deepa Thank you, I hope that after so many reseach work done (not very known) the Castelo Branco Embroidery will carry on – I have more posts about ;)

  6. Pingback: Yellow for the Castelo Branco bird | enbrouderie

  7. Apesar de muito «fora do prazo», aqui estou também a agradecer:
    Obrigada também, Méri, pelo seu entusiasmo e empenho em procurar e divulgar estes encantos!
    E … temos de repetir, sim!

Comments are closed.